O ADOLESCENTE DO CENTRO DE ATENDIMENTO E APOIO AO ADOLESCENTE (CAAA)
THE ADOLESCENT AT THE CENTER FOR CONSULTING AND SUPPORTING THE ADOLESCENT
Sung Sih Chung -
Professor Assistente da Disciplina de Especialidades Pediátricas do Departamento de Pediatria da UNIFESP-EPMO Adolescente no CAAA
Foram analisados 145 prontuários de adolescentes atendidos no CAAA, no período de março de 1996 a abril de 1997. Considerou-se como queixa a apresentada pelo adolescente por ocasião de primeira consulta médica. Baixa estatura, dores crônicas e obesidade corresponderam a 57.9% do total das queixas. A avaliação da escolaridade revelou que, entre os 121 adolescentes que cursavam a escola comum, 64.4% estavam com atraso escolar, comprometendo a qualidade da vida e o seu futuro.
The records of 145 adolescents that attended the CAAA during the period of March 1996 to April 1997 were analyzed on the basis of the main complaint that brought the patient to the service. Short stature, chronic recurrent pains and obesity were the most frequent complaints (57.9%). The school performance history obtained from 121 adolescents revealed that 64.4% were delayed when matched by age and school grade.
Introdução
A adolescência é um período da vida marcado por profundas transformações, tanto corporais quanto psicológicas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, está limitado à população entre os 10 e 20 anos de idade. Nesse período o indivíduo está "entre idades", nem criança nem adulto, precisa assumir sua própria identidade e afirmar-se dentro de seu esquema corporal e do próprio sexo. Embora adoeça pouco, necessita de orientação e apoio por parte de profissionais adequadamente treinados para que possa superar esta fase sem atirar-se a comportamentos de risco, uma vez que sabemos que 70% da causas de morte nessa população são devidas a causas externas.
Além disso, observa-se também o aumento da incidência do uso de drogas, lícitas e ilícitas, da taxa de gravidez e das doenças sexualmente transmitidas nessa faixa etária. O adolescente precisa ser educado para a saúde. Como os serviços de atendimento ao adolescente são ainda relativamente novos em nosso meio, precisamos conhecer um pouco sobre essa população. Com esse objetivo fizemos um levantamento retrospectivo de 145 consultas novas atendidas entre março de 1996 e abril de 1997.
Foram analisados retrospectivamente os prontuários de atendimento de primeira consulta, no período de março de 1996 a abril de 1997, num total de 145 pacientes atendidos no CAAA. O serviço atende a uma população regionalizada, de classe média ou média-baixa, que engloba os bairros da Grande São Paulo.
O estado nutricional foi calculado de acordo com o Índice de Massa Corpórea ( IMC = P/E² ) em quilos/ m² , considerando-se como desnutridos aqueles com IMC< 20, normais entre 20 e 25, sobrepeso entre 25 e 30 e obesos com IMC> 30. O estágio de desenvolvimento sexual foi analisado de acordo com os critérios de Tanner.
Como motivo da consulta considerou-se a queixa do próprio adolescente, mesmo que este apresentasse queixa diferente do responsável que o acompanhava. Algumas vezes, o adolescente tinha mais de uma queixa. Ao final da consulta, após anamnese e exame físico, foram consideradas as hipóteses diagnósticas feitas pelo hebeatra.
Dos 145 adolescentes que fizeram parte da amostra, 87 (60%) eram do sexo feminino e 58 (40%) do masculino. A idade variou de 9 anos e 10 meses a 18 anos e 9 meses. Esses resultados estão mostrados na Tabela I.
Tabela I - Distribuição por faixa etária dos adolescentes atendidos no CAAA
FAIXA ETÁRIA NÚMERO % |
||
10 --- 11 anos |
6 |
4.1 |
12 --- 13 anos |
84 |
57.9 |
14 --- 16 anos |
44 |
30.3 |
17 --- 19 anos |
11 |
7.6 |
TOTAL |
145 |
100.0 |
Os resultados da avaliação do estado nutricional de acordo com o Índice de Massa Corpórea (IMC) estão mostrados na Tabela II.
Tabela II - Estado nutricional de acordo com IMC
IMC (Kg / m² ) |
NÚMERO |
% |
< 20 |
12 |
8.3 |
20 < IMC < 25 |
99 |
68.3 |
25 < IMC < 29 |
19 |
13.1 |
> 30 |
15 |
10.3 |
TOTAL |
145 |
100.0 |
As queixas, em ordem decrescente de freqüência, estão mostradas na Tabela III:
Tabela III - Motivo da consulta no CAAA
QUEIXA NÚMERO % |
||
sem queixa (encaminhado) |
37 |
25.5 |
baixa estatura |
25 |
17.2 |
dores crônicas |
23 |
15.8 |
Obesidade |
18 |
12.4 |
Problemas ginecológicos |
13 |
8.9 |
Problemas de relacionamento |
13 |
8.9 |
Queixas urinárias |
11 |
7.6 |
Outras |
11 |
7.6 |
TOTAL |
151 |
-- |
Entre os adolescentes que procuraram o serviço a queixa de baixa estatura foi relatada em 7 (28%) do sexo feminino e em 18 (72%) do sexo masculino. Desses 25 pacientes, 14 (56%) não haviam entrado na fase de estirão de crescimento, estando nos estádios 1 e 2 do desenvolvimento de Tanner. Somente três, todas mulheres já haviam completado o desenvolvimento (estádios 4 e 5 de Tanner). Em 22 pacientes, 7 meninas e 15 meninos, com baixa estatura foi possível obter a estatura dos pais. A relação entre a estatura dos pacientes, estadiamento de Tanner e estaturas do pai e da mãe está mostrada nas Tabelas IV e V.
Tabela IV - Relação entre estatura das meninas, estádio de Tanner e estatura dos pais.
EST.PAC |
EST. MÃE |
EST. PAI |
TANNER |
148 |
158 |
171 |
M4P4 |
153 |
160 |
160 |
M4P5 |
137 |
144 |
155 |
M5P5 |
141 |
143,5 |
150 |
M3P3 |
141 |
148 |
150 |
M3P3 |
138,5 |
163 |
163 |
M3P3 |
139 |
175 |
180 |
M1P1 |
Tabela V - Relação entre estatura dos meninos, estádio de Tanner e estatura dos pais.
EST. PAC |
EST. MÃE |
EST. PAI |
TANNER |
146,5 |
154 |
155 |
G3P3 |
149.5 |
153 |
165 |
G3P3 |
146 |
153 |
155 |
G3P3 |
141 |
166 |
173 |
G2P2 |
141.5 |
153 |
180 |
G2P2 |
139 |
158 |
160 |
G2P1 |
135 |
160 |
163 |
G1P2 |
140 |
157 |
175 |
G1P1 |
132 |
148 |
150 |
G1P1 |
135 |
150 |
180 |
G1P1 |
129 |
152 |
155 |
G1P1 |
127 |
157 |
164 |
G1P1 |
134 |
146 |
170 |
G1P1 |
125 |
160 |
163 |
G1P1 |
145 |
160 |
160 |
G1P1 |
Por outro lado, dos 23 (15.8%) adolescentes que procuraram o serviço devido a dores crônicas, 9 (6.2%) tinham dor abdominal recorrente, 7 (4.8%) tinham cefaléia e 7 (4.8%) dor em membros inferiores.
A queixa pelos adolescentes de obesidade foi relatada em 18 (12.4%) pacientes, 12 eram do sexo feminino e 6 do sexo masculino. Os problemas ginecológicos foram dismenorréia em 4 pacientes, alterações do ciclo menstrual em 4, leucorréia inespecífica em 3, nódulo mamário em 1 e uma suspeita de gravidez. A idade da menarca variou dos 9 anos aos 14 anos e 2 meses, com média de 11.9 anos.
Em relação aos distúrbios de comportamento, mau relacionamento familiar foi a queixa mais freqüente, seguida de dificuldade escolar.
Na avaliação do rendimento escolar observamos que dos 145 adolescentes estudados, 121 freqüentavam a escola normal, 5 estavam em classe especial, 5 haviam abandonado a escola e em 14 prontuários não foi possível obter o dado quanto a escolaridade. Considerando o grupo de 121 pacientes que estudavam em escola normal, nota-se que 73 deles (60.3%) nunca haviam repetido de ano e 48 (39.7%) haviam repetido pelo menos uma vez. Porém destes 73 estudantes que não haviam repetido, somente 43 não apresentavam atraso escolar. Isto equivale a dizer que dos 121 adolescentes em escola normal, 43 estavam na série adequada a sua idade e os 78 restantes estavam atrasados. Dos 48 pacientes com repetência escolar, 24 tinham repetido uma vez, 18 repetiram duas vezes e 6 repetiram três vezes.
Gráfico 1 - Adequação escolar (série/idade) dos adolescentes freqüentando escola normal
Tendo sido avaliado o perfil desses adolescentes a partir de dados obtidos na primeira consulta ao serviço, observamos que, quando perguntados, somente 6 referiam vida sexual ativa, dois homens (16 e 17 anos) e quatro mulheres (14, 15,15 e 16 anos). Da mesma forma, só 7 referiam tabagismo, 9 uso de álcool e nenhum dizia usar ou ter usado drogas psicoativas.
Também observamos que as hipóteses diagnósticas feitas ao final da primeira consulta, após história cuidadosa, conversa com o responsável pelo adolescente e exame físico, nem sempre foram compatíveis com a queixa inicial do paciente. Essas hipóteses estão mostradas na Tabela VI. Em alguns pacientes foram feitas mais de uma hipótese diagnóstica.
Tabela VI - Hipóteses diagnósticas ao final da primeira consulta
HIPÓT. DIAGNÓSTICA |
NÚMERO |
% |
Baixa estatura |
29 |
20 |
Obesidade |
15 |
10.3 |
Sobrepeso |
19 |
13.1 |
Dores crônicas |
18 |
12.4 |
Rinite alérgica |
9 |
6.2 |
Dismenorréia |
18 |
12.4 |
Síndromes genéticas |
7 |
4.8 |
Leucorréia |
15 |
10.3 |
Distúrbio comportamento |
6 |
4.1 |
Alterações da coluna |
5 |
3.5 |
Enurese |
5 |
3.5 |
Gravidez |
1 |
0.7 |
Nódulo mamário |
1 |
0.7 |
Outras |
8 |
5.5 |
TOTAL |
156 |
Entre os 18 adolescentes com hipótese diagnóstica de dor crônica, 7 pacientes tinham cefaléia, 5 tinham dor pré cordial, 3 tinham dor abdominal e 3 tinham dor em membros inferiores. Problemas relacionados a área ginecológica, tiveram uma prevalência de 40.2% dos pacientes do sexo feminino.
A atenção à saúde do adolescente deve levar em consideração o dinâmico processo de crescimento e desenvolvimento, associado às profundas transformações psíquicas e sociais, que ocorrem entre os 10 e 20 anos de idade. Essas características desse período de vida determinam a atuação do hebeatra nas condutas preventivas e curativas.
O atendimento ao adolescente deve ser multiprofissional, envolvendo médicos de várias especialidades, junto com profissionais de saúde não-médicos, como enfermeira, nutricionista, psicóloga, fonoaudióloga, assistente social etc..
A ficha de atendimento utilizada no Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente foi elaborada para obter informações sobre a saúde do paciente e da sua família, do rendimento escolar e seu relacionamento social. A anamnese da primeira consulta é realizada inicialmente com a presença do acompanhante responsável e depois apenas com o adolescente. Após anamnese e o exame físico são elaborados os diagnósticos referentes ao crescimento, maturação sexual, estado nutricional, alimentação, vacinação, desenvolvimento neuropsicosocial, uso de drogas e problemas de saúde atuais, estabelecendo-se, finalmente as condutas e prevenções adequadas.
Em nosso serviço nota-se que baixa estatura, dores crônicas e obesidade constituíram em 57.9% das queixas apresentadas pelos adolescentes.
A baixa estatura é realmente um dos motivos mais freqüentes da procura do adolescente em serviços médicos. O sexo masculino preocupa-se mais que as meninas a respeito da baixa estatura, fato este também observado neste levantamento. Entretanto a maioria dos nossos pacientes (56%) com essa queixa, ainda se encontravam nos estádios 1 ou 2 do desenvolvimento de Tanner
Entre os adolescentes que trouxeram como queixa principal dor crônica, as localizações foram dor abdominal, cefaléia e dor em membros inferiores. A dor abdominal recorrente é uma ocorrência freqüente, estimando-se que 15% dos adolescentes, em algum período de seu desenvolvimento, a apresente. Em geral é de causa funcional, desaparecendo após alguns meses. Cefaléia também é sintoma comum em crianças e adolescentes, a grande maioria benigna, não requerendo tratamento especial. O crescimento rápido da adolescência predispõe ao aparecimento de problemas músculo-esqueléticas, e, portanto, dores em membros e coluna vertebral.
A prevalência da obesidade está aumentando rapidamente entre crianças e adolescentes na maioria dos países, sendo uma das alterações nutricionais predominantes na população de adolescentes, requerendo prevenção eficaz e tratamento precoce.
O atendimento integral do adolescente deve incluir sempre avaliação da escolaridade, que compreende a adequação da idade com a série cursada, o desempenho escolar e a adaptação e o interesse pela escola. Problemas escolares nessa faixa etária são comumente observados, provocando repetência e abandono escolares. As causas desta dificuldade escolar são múltiplas, tais como problemas neurológicos, emocionais, nutricionais, de aprendizagem, familiares e também relacionados à escola. Neste levantamento do CAAA observamos que dos 121 pacientes que estavam freqüentando a escola comum, 64.4% estavam com atraso escolar, comprometendo a qualidade de vida e o futuro desse indivíduo.
Chipkevitch, E. Mortalidade na Adolescência. In: Puberdade e adolescência: aspectos biológicos, clínicos e psicossociais. Pg. 253. Ed. Roca Ltda., São Paulo, 1995.
Coates, V. Atendimento médico. In: Adolescência e Saúde. Comissão de Saúde do Adolescente, Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, São Paulo, Paris Ed., 1988.
Galduroz, JFC; Noto, AR; Carlini, EA. IV Levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras. CEBRID, UNIFESP-EPM, Depto. De Psicobiologia, São Paulo, 1997.
Guimarães, JP. Grupos educativos para adolescentes. In: Adolescência e Saúde-2. Comissão de Saúde do Adolescente, Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, Imprensa Oficial do Estado SA IMESP, 1994.
OMS Necesidades de la Salud de los Adolescentes. Série de Informes Técnicos no. 609. Ginebra, OMS, 1977.
Petri, V. AIDS e Adolescência. In: Adolescência e Saúde-2. Comissão de Saúde do Adolescente, Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, Imprensa Oficial do Estado SA IMESP, 1994.
Saito, MI. Obesidade na Adolescência. In: Adolescência e Saúde-2. Comissão de Saúde do Adolescente, Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, Imprensa Oficial do Estado SA IMESP, 1994.
Tanner, JM; Whitehouse, RH. Clinical longitudinal standards for height weight, height and weight velocity and the stages of puberty. Arch Dis Child, 51: 170, 1976.
Takiuti, AD. Atendimento na rede básica de Saúde. In: In: Adolescência e Saúde. Comissão de Saúde do Adolescente, Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, São Paulo, Paris Ed., 1988.
Yunes, J; Primo, E. Características de la mortalidad de los adolescentes brasilenos. In: La salud del adolescent y el joven en las Americas. OPS, 1985.