SUPLEMENTAÇÃO DE FERRO NA INFÂNCIA*
Macarena Urrestarazu Devincenzi Nutricionista, Pós Graduanda do Curso de Nutrição da UNIFESP/EPM
Luciana Cisoto Ribeiro - Nutricionista, Pós Graduanda do Curso de Nutrição da UNIFESP/EPM
Profª Drª Dirce Maria Sigulem Coordenadora do Curso de Pós Graduação em Nutrição da UNIFESP/EPM
Endereço:
Pós Graduação em Nutrição.
Rua Marselhesa, 630.
Cep: 04020-060. São Paulo- SP.
Tel:576-4489 Fax: 570-0370.
*
Artigo publicado na Revista Diagnóstico & Tratamento 1999, 4(1):49-52.Resumo
A anemia ferropriva é o problema nutricional de maior prevalência no mundo, atingindo 43% dos lactentes. A principal etiologia da carência nesse grupo etário é a alimentar. As consequências da anemia na infância envolvem: prejuízo do desenvolvimento motor e coordenação; prejuízo do desenvolvimento da linguagem e aprendizagem; efeitos psicológicos e de comportamento; diminuição da atividade física, além de maior predisposição às infecções. Em função dos altos requerimentos fisiológicos nos dois primeiros anos de vida, mesmo com a introdução de boas fontes de ferro, dificilmente a criança conseguirá ingerir através da alimentação a quantidade de ferro diária recomendada, fazendo-se necessária a suplementação do mineral neste grupo etário.
Palavras chaves: suplementação com ferro, anemia ferropriva, dieta infantil, fontes de ferro.
SUPLEMENTAÇÃO DE FERRO NA INFÂNCIA*
A anemia ferropriva é o problema nutricional de maior prevalência no mundo. A carência ocorre quando existe um desequilíbrio entre a absorção e as necessidades orgânicas do mineral. Esse desequilíbrio pode ser devido à ingestão inadequada de ferro, à sua biodisponibilidade reduzida na dieta, às necessidades aumentadas em grupos específicos, ou à perdas crônicas de sangue, que acarretam uma diminuição da taxa de hemoglobina, caracterizando a anemia. 1,2
Nos países em desenvolvimento as causas mais freqüentes de anemia ferropriva são a deficiência de ferro na dieta e o aumento das perdas deste elemento por infestação parasitária, sendo as anemias causadas por hemorragias e má absorção menos freqüentes na população. Estudo realizado em crianças de 6 a 60 meses, no município de São Paulo, com o propósito de avaliar o papel da infestação parasitária na ocorrência de anemia ferropriva, verificou elevada prevalência de parasitose intestinal entre crianças maiores de 2 anos. No entanto esta não mostrou associação com a carência de ferro nas crianças menores de 24 meses, ficando evidente que a principal etiologia neste grupo etário é a alimentar. 1
Entre os lactentes a prevalência mundial de anemia chega a 43% 2. No Brasil não há estudos nacionais de prevalência, porém estudos regionais apontam o aumento da prevalência de anemia. Em 1994, no estado de São Paulo, foram encontrados 59,1% de anemia em crianças menores de 24 meses atendidas em Unidades Básicas de Saúde sendo que em 25,1% dessas crianças o valor da hemoglobina era inferior a 9,5g/dl.3 Em favelas na região de Vila Mariana, município de São Paulo, registraram-se 63,1% de anemia em menores de 36 meses, e 43,9% com valores inferiores a 9,5g/dl.4
As conseqüências da anemia na infância envolvem: prejuízo do desenvolvimento motor e coordenação; prejuízo do desenvolvimento da linguagem e aprendizagem; efeitos psicológicos e de comportamento (desatenção, fadiga, insegurança) e diminuição da atividade física. Há também evidências do impacto negativo da anemia no sistema imune, aumentando a predisposição às infecções. 2
Reservas de ferro ao nascer e requerimentos no crescimento
A incorporação de ferro pelo feto é proporcional ao seu peso corporal. Como o mais importante aumento de peso fetal ocorre no último trimestre da vida intra-uterina, a criança prematura e a que sofreu retardo de crescimento intra-uterino, resultando num baixo peso ao nascer, acumularão menos ferro em comparação ao recém-nascido a termo e de peso adequado para a idade gestacional. 5
A partir do nascimento o RN sofre importantes modificações do quadro hematológico com a finalidade de se adaptar ao meio extra-uterino. Observa-se nas primeiras semanas de vida uma queda acentuada, autolimitada, da taxa de hemoglobina, comum a todos os lactentes. Trata-se de uma queda fisiológica, cujo pico ocorre na oitava semana de vida. A administração de ferro nesta ocasião não impede nem atenua essa queda. Em torno da oitava e décima segunda semana de vida ocorre a retomada de produção da eritropoiese e o ferro armazenado será reutilizado, sendo mínimo o requerimento de ferro exógeno. A velocidade de crescimento nos primeiros meses porém, poderá provocar esgotamento dos estoques de ferro em torno do quarto ao sexto mês de vida para o RN a termo e com peso adequado para a idade gestacional. Após esse período, o ferro exógeno tem importância fundamental na prevenção da anemia. É nessa época que a suplementação com ferro eleva a concentração de hemoglobina.5
A criança nascida a termo triplica seu peso de nascimento durante o primeiro ano de vida. Os requerimentos médios de ferro absorvido calculados para o crescimento são de cerca de 0,4mg/dia dos 0 aos 12 meses de idade, sendo mais elevados no segundo semestre (6 a 12 meses), quando os lactentes necessitam de cerca de 0,53 mg/dia de ferro para o crescimento. Um aspecto crítico da nutrição férrica na primeira infância, quando comparado ao adulto em termos de proporções corporais, é a maior dependência da criança às fontes externas de ferro para produção de hemácias. Estes elevados requerimentos fisiológicos tornam a criança particularmente vulnerável à anemia ferropriva durante o segundo semestre e o segundo ano de vida. 5
Dieta infantil e aporte de ferro
No primeiro ano de vida a dieta da criança é basicamente láctea e tanto o leite materno como o leite de vaca fornecem quantidades pequenas de ferro, porém no leite materno, idealmente o primeiro alimento que a criança recebe, o mineral apresenta alta biodisponibilidade. As crianças que o recebem exclusivamente até o 6º mês de vida não necessitam de qualquer forma de suplementação de ferro. A introdução de alimentos sólidos porém, poderá comprometer a biodisponibilidade do ferro do leite humano, sendo necessário iniciar a suplementação com ferro na mesma época do desmame. 5
Quando o aleitamento é artificial, com uso de leite de vaca in natura, o risco da deficiência é maior, já que neste a quantidade de ferro também é baixa e a biodisponibilidade é ruim. Além disso o leite de vaca pode provocar microhemorragias no trato digestivo, comprometendo o estado nutricional de ferro da criança. Em seu lugar, quando houver a necessidade de administração de outro leite que não o materno, sugere-se o uso de fórmulas especiais enriquecidas com ferro.
Com a introdução de novos alimentos à dieta infantil, deve-se incluir aqueles que são fontes de ferro. No Quadro 1 observam-se as fontes do mineral; o ferro de origem animal, heme, tem boa biodisponibilidade, e o ferro não heme, de origem vegetal, tem biodisponibilidade baixa, influenciada por fatores da dieta que aumentam ou diminuem sua absorção. 2
Quadro 1: Tipos e fontes de ferro dietético e fatores facilitadores e inibidores da absorção.
Tipo de ferro |
Fontes alimentares |
Fatores da dieta |
Ferro heme |
Carne, peixes, aves, miúdos e embutidos |
Não existe interferência |
Ferro não- heme |
Cereais, leguminosas e tubérculos |
Facilitadores: Ácido ascórbico (Vitamina C), carnes e pH baixo Inibidores: Fitatos (fibras), fosfatos, carbonatos, taninos (chá e café), fosfoproteína (ovos) |
Porém em função dos altos requerimentos fisiológicos nos dois primeiros anos de vida, mesmo com a introdução de boas fontes de ferro, dificilmente a criança conseguirá ingerir através da alimentação a quantidade de ferro diária recomendada. Desta forma torna-se necessária a suplementação do mineral neste grupo etário.
Muitas metodologias estão sendo avaliadas quanto à eficácia e funcionalidade como medida preventiva e curativa da anemia ferropriva, como o incentivo ao aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida, profilaxia com doses diárias de sais de ferro até 24 meses e fortificação de alimentos habitualmente consumidos pelas crianças como leite, biscoitos e cereais infantis.
No quadro 2 apresenta-se a proposta aceita pela Sociedade Brasileira de Pediatria, quanto à suplementação de ferro para crianças menores de dois anos. 6
Quadro 2: Suplementação profilática de ferro para crianças menores de dois anos segundo maturidade e peso de nascimento.
| Recém Nascido | Início | Dose recomendada | Duração |
| Prematuros e a termo com baixo peso ao nascer (<2500g) | 30 º dia de vida | 2mg Fe/Kg de peso/dia | 2 meses (após este período, prosseguir com 1mg Fe/Kg de peso/dia até 24 meses) |
| A termo com peso normal ao nascimento | Juntamente com desmame (por volta do 5º e 6º mês de vida) | 1mg Fe/Kg de peso/dia | Até 24 meses |
Essa suplementação pode ser tanto via medicamentosa ou com a utilização de alimentos fortificados. Deve-se, no entanto, ter o cuidado de não ultrapassar a dose de 15mg Fe por dia, independente do peso da criança, segundo recomendação da Academia Americana de Pediatria.
A orientação quanto a suplementação profilática de ferro para as crianças menores de 24 meses deve ser feita como rotina, por todos os médicos que atendem esse grupo etário, sejam eles pediatras ou não. Isto porque as prevalências são muito altas na população infantil, justificando esta intervenção.
Referências Bibliográficas