RUPTURA DE TRAQUÉIA E BRÔNQUIO APÓS UM PARTO TRAUMÁTICO: UMA COMPLICAÇÃO RARA

RUPTURE OF THE TRACHEA AND BRONCHI AFTER A TRAUMATIC DELIVERY: AN UNUSUAL COMPLICATION

RUPTURA DE TRAQUÉIA E BRÔNQUIO APÓS UM PARTO TRAUMÁTICO


CECILIA M. DRAQUE - MESTRE EM PEDIATRIA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

MILTON H. MIYOSHI - PROFESSOR ASSISTENTE DA DISCIPLINA DE PEDIATRIA NEONATAL DO DEPARTAMENTO DE PEDIATRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO – ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA

RUTH GUINSBURG – PROFESSORA ADJUNTA DA DISCIPLINA DE PEDIATRIA NEONATAL DO DEPARTAMENTO DE PEDIATRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

ROSELI GIUDICI – PROFESSORA ADJUNTA DA DISCIPLINA DE CIRURGIA TORÁCICA DO DEPARTAMENTO DE CIRURGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

BENJAMIN I. KOPELMAN - PROFESSOR TITULAR E LIVRE DOCENTE DA DISCIPLINA DE PEDIATRIA NEONATAL DO DEPARTAMENTO DE PEDIATRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO.

DISCIPLINA DE PEDIATRIA NEONATAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO – ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA
CECILIA MARIA DRAQUE, RUA DIOGO DE FARIA, 764 – VILA CLEMENTINO SÃO PAULO-SP – FONE/FAX: (011) 570-1676 / 570-4982.


 RESUMO

Objetivo: Descrever um caso de recém-nascido com provável lesão de brônquio secundária à trauma de parto.

Método: Relato de caso.

Resultados: Trata-se do caso de um neonato a termo nascido de parto fórceps que apresentou nas primeiras horas de vida enfisema subcutâneo, pneumomediastino, sendo necessário o uso de oxigenioterapia em altas concentrações (Fio2 1,0). A broncoscopia revelou-se sugestiva de lesão traumática no brônquio principal direito. O recém-nascido teve alta hospitalar no oitavo dia de vida.

Conclusão: Ruptura de traquéia e brônquio é raro, mas deveria ser lembrado quando um recém-nascido apresenta pneumomediastino ou enfisema subcutâneo após um parto complicado.


ABSTRACT

Objective: To describe a case of a neonate whose bronchi ruptured during a traumatic delivery.

Method: Case report.

Results: This is the case of a term neonate born of vaginal delivery with the help of forceps who developed shortly after birth, subcutaneous emphysema, pneumomediastinum, to being necessary administration of a high inspired oxygen concentration (Fio2 1,0). A bronchoscopy revealed a rupture in the right bronchi. The newborn was discharge from hospital with eight days.

Conclusion: Tracheal and bronchi rupture is uncommon, but should be kept in mind when a baby presents with pneumomediastinum or subcutaneous emphysema following a difficult delivery.


 Ruptura de traquéia e brônquio após um parto traumático: uma complicação rara

 Introdução

A ruptura de traquéia ou brônquios durante um parto complicado é uma ocorrência rara. A insuficiência respiratória, com freqüência, inicia-se logo após o nascimento conseqüente ao pneumomediastino ou enfisema subcutâneo podendo progredir para pneumotórax, sendo o diagnóstico confirmado pela broncoscopia. A lesão pode cicatrizar-se espontaneamente com ou sem necessidade de intubação. A cirurgia pode ser necessária para reconstrução da traquéia e brônquios, quando não ocorre cicatrização espontânea ou em casos de estenose de traquéia. A seguir descreveremos o caso de um recém-nascido (RN) internado na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Hospital São Paulo – Universidade Federal de São Paulo, no ano de 1998 cujo diagnóstico foi a ruptura de brônquio após um parto traumático.

 

Relato do caso

RN de M.S.A.M., sexo feminino, mãe de 41 anos, branca, sem antecedentes mórbidos, tabagista. Terceira gestação, sendo que a primeira foi um parto fórceps há 14 anos e a segunda gestação um aborto espontâneo há seis anos. Fez nove consultas de pré-natal sem intercorrências. Iniciou o trabalho de parto com idade gestacional avaliada pelo ultra-som de 39 a 40 semanas. Nasceu com peso de 3235g. de parto vaginal, sendo necessário o uso de fórceps Simpson-Braun com raquianestesia. Ao nascimento o Apgar foi de 8 e 9 no primeiro e quinto minuto respectivamente, necessitando apenas de oxigênio inalatório. Apresentava-se ao exame físico inicial sem alterações, sendo liberado para o alojamento conjunto. Com aproximadamente 12 horas de vida o neonato evoluiu com taquipnéia e crepitação em região de pescoço e tórax superior. No exame radiológico de tórax evidenciou-se enfisema subcutâneo e pneumomediastino (Fig. 1). O RN foi colocado no halo com oxigênio a 100% por 18 horas, apresentando melhora clínica e radiológica do enfisema e do pneumediastino. Realizado broncoscopia no 3° dia de vida que mostrou uma pequena área de enantema em parede posterior de brônquio principal direito sugestiva de lesão traumática. O recém-nascido teve alta hospitalar no 8° dia de vida, assintomático.

 Discussão

A lesão de traquéia e brônquios durante o processo de nascimento é uma ocorrência pouco freqüente.

Existem cinco relatos na literatura de recém-nascidos com ruptura de traquéia (1-5). Em todos, os neonatos evoluíram com desconforto respiratório secundário a pneumomediastino e enfisema subcutâneo no primeiro dia de vida. Em três deles também foi encontrado pneumotórax com necessidade de drenagem torácica(2-4). Todos necessitaram de oxigenioterapia e em três casos foi necessário a intervenção cirúrgica, uma para remoção de área de estenose no local da lesão de traquéia (1) e em dois casos para reconstrução da traquéia (4-5).

O mecanismo da ruptura da traquéia e brônquios durante o parto pode estar relacionado à tração excessiva do pescoço durante o desprendimento dos ombros. No entanto, considerando o grande número de partos em que ocorre a tração do pescoço, esta complicação é extremamente rara. Este fato pode ser explicado pela existência de algum fator predisponente tal como, estenose congênita da traquéia ou agenesia de anel traqueal que predisponha à ruptura (2).

Apesar de ser uma complicação rara, a ruptura de traquéia e de brônquio deveria ser suspeitada em RN que evoluem com pneumomediastino e/ou enfisema subcutâneo após um parto difícil e traumático. A broncoscopia é necessária para o diagnóstico e localização da área lesada. Além disso, ela pode auxiliar na inserção da cânula traqueal, posicionando sua ponta em local adequado na tentativa de tamponar a lesão traqueal. A evolução pode ser fatal se um tratamento rápido não for instituído. Este inclui: intubação traqueal mantendo a ponta da cânula traqueal distalmente à área lesada; em caso de pneumotorax realizar a drenagem torácica imediata; administração de altas concentrações de oxigênio (FiO2 1,0) para acelerar a absorção do ar extra-pulmonar seja no mediastino, no espaço pleural ou no tecido subcutâneo (lavagem de nitrogênio). O recém-nascido deve ser mantido intubado por pelo menos 8 a 10 dias para que ocorra a cicatrização adequada da área lesada. É recomendável repetir a broncoscopia após a extubação para avaliação da cicatrização da lesão. 


Referências Bibliográficas:

1. Eijgelaar A, Knol K, van Doormaal-Stremmelaar EF, Bröker FHL, Edens ET. Trachearuptuur een uitzonderlijk geboorteletsel. Ned Tijdschr Geneeskd, 1978;122:1706-8.

2. Hogasen A KM, Boe G, Finne PH. Rupture of the trachea: an unusual complication of delivery. Acta Paediatr 1992;81:944-5.

3. De Lagausie P, Georget G, Garel C, Kazandjian V, Casadevall I, Polonovski JM, et al. Tracheal rupture in a newborn during a complicated delivery. Diagnosis and surgical repair. Eur. J. Pediatr Surg. 1992;2(4):230-2.

4. Rübo J, Stannigel H, Sprock I, Bachert C, Wahn V. Partial tracheal rupture in a newborn infant. A rare traumatic birth complication or intubation sequela? Monatsschr Kinderheilkd 1993;141(10):786-8.

5. Umans-Eckenhausen M, Bok V, Mahieu H, Haasnoot K. A neonate with respiratory distress after a traumatic delivery. Eur J Pediatr 1997;156:891-2. 


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