A FAMÍLIA DO ADOLESCENTE


Maria Aznar Farias - Psicóloga, professora doutora do Centro de Atenção e Apoio ao Adolescente do Departamento de Pediatria da UNIFESP/EPM.


Resumo

O presente artigo apresenta a Teoria Ecológica dos Sistemas de Bronfenbrenner na formação do indivíduo e discorre sobre as funções, deveres e papéis que devem ser desempenhados pela família. Aponta para a necessidade de serem discutidos alguns dos mitos que existem em torno do comportamento adolescente.


A família é o primeiro sistema social no qual o ser humano é inserido quando de seu nascimento. O sistema familiar é um sistema aberto – quando saudável – e dinâmico. Ele muda com o passar do tempo: modificações no número de membros – por entrada ou saída – e processo de desenvolvimento – entrada ou término de etapas, por exemplo.

Cada membro do sistema passa por uma série de papéis de acordo com a idade, sexo e inter-relações, dentro e fora da família – por exemplo: ser filho, neto, irmão, estudante.

Existe uma interdependência dos membros do sistema familiar de forma que cada papel desempenhado por eles altera e retroalimenta o sistema.

De acordo com a Teoria Ecológica dos Sistemas de Bronfenbrenner, o indivíduo se desenvolve dentro de um sistema de relações que são afetadas por múltiplos níveis do ambiente mais próximo. O ambiente é dividido em níveis:

MICROSISTEMA -  ( primeiro e mais interno ) padrões e atividades de interação do entorno proximal do indivíduo. A palavra interação se refere às trocas bidirecionais entre o indivíduo e o seu meio.

MESOSISTEMA -  engloba conexões entre microsistema como o lar, a escola, a vizinhança, a creche, etc. que fomentam o desenvolvimento do indivíduo.

EXOSISTEMA - se refere aos cenários sociais próximos que afetam as experiências dos indivíduos. Podem ser relações formais como o local de trabalho dos pais, os serviços de saúde e bem estar da comunidade, a rede social da família ou mesmo membros da família extensa.

O Exosistema é muito importante no apoio ao desenvolvimento do indivíduo. Pesquisas mostram que famílias isoladas por ausência ou escassez de vínculos sociais ou formais – como o desemprego, por exemplo – mostram um percentual elevado de conflitos.

MACROSISTEMA - o nível mais exterior do modelo de Bronfenbrenner consiste nos valores, leis, costumes e recursos de uma cultura particular. A ação do macrosistema recai por vias indiretas na qualidade do mesosistema. Por exemplo: as políticas sanitárias interferindo na qualidade do ambiente de creches ou escolas.

Vimos como, em cada um dos sistemas, a "Teoria Ecológica dos Sistemas" nos mostra a importância e a interdependência das relações familiares no desenvolvimento do indivíduo. Queremos falar um pouco também sobre as funções e deveres da família. Para isso citaremos Rodrigo e Palacios (1998).

As autoras nos apontam quatro funções e quatro deveres importantes da família. As três primeiras funções são descritas como cenários: 1- Onde se constroem pessoas adultas com uma determinada auto-estima e um determinado sentido de si mesmo. 2- De preparação onde se aprende a enfrentar desafios, assim como assumir responsabilidades e compromissos que orientam os adultos na direção de uma dimensão produtiva, plena de realizações e projetos integrados no meio social. 3- De encontro entre gerações onde os adultos ampliam seu horizonte vital formando uma ponte na direção do passado (geração dos avós) e outra na direção do futuro (a geração dos filhos). O "material" principal para a construção e comunicação entre as gerações é, de um lado o afeto e do outro os valores que regem a vida dos membros da família e que servem de inspiração e guia para suas ações. 4- Na quarta função a família é descrita como uma rede de apoio social para as diversas transições vitais que o adulto deverá realizar: busca de parceiro, de trabalho, de moradia, de novas relações sociais, aposentadoria, velhice, etc.

Como deveres básicos da família são colocados:

1- Assegurar a sobrevivência dos filhos, seu crescimento saudável e sua socialização dentro dos comportamentos básicos de comunicação, diálogo e simbolização. Essa função vai mais além, se estende aos aspectos que permitem transformar um ser humano biológico em um ser psicológico. 2- Aportar a seus filhos um clima de afeto e apoio, sem os quais o desenvolvimento psicológico saudável não é possível. 3- Aportar aos filhos a estimulação necessária para transformá-los em seres com capacidade para se relacionar competentemente com o seu meio físico e social, assim como também para responder às demandas e exigências necessárias à sua adaptação ao mundo no qual lhes toca viver. 4- Tomar decisões quanto à abertura a outros contextos educativos que compartirão com a família a tarefa da educação das crianças.

As colocações das autoras sobre as funções e deveres da família são complementadas com o significado e função de ser pais, o que nos remete aos aspectos necessários nessa transição tão importante . Segundo as autoras, ser pais significa: 1- Por em andamento um projeto vital educativo que supõe um longo processo que se inicia com a transição à parentalidade, continua com as atividades de criação e socialização dos filhos pequenos e posteriormente com o sustento e apoio deles durante a adolescência, e até depois dela. 2- Introduzir-se em uma intensa implicação pessoal e emocional que traz uma nova dimensão. 3- Preencher de conteúdo esse projeto educativo durante todo o processo de criação e educação dos filhos.

Ao falarmos sobre a família do adolescente é importante refletir sobre o processo de interações prévias, uma vez que a conjunção no presente tem um passado, uma história. Os possíveis problemas e dificuldades que a família tenha no relacionamento com seus adolescentes foram sendo construídos ao longo da vida. Não podemos esquecer que, em grande parte, quando existem problemas sérios estes se referem complementarmente tanto aos adolescentes quanto às suas famílias. Funções, deveres e papéis adequados fazem parte de um desenvolvimento saudável.

Outro aspecto que gostaríamos de discutir são os mitos sobre o comportamento adolescente. Segundo Hoffman, Paris e Hall (1996), existem quatro mitos sobre a adolescência que não descrevem a maioria dos adolescentes. São eles: 1- Que a adolescência seja um período de instabilidade emocional. 2- Que os problemas desta etapa sejam próprios da idade e que não continuem na vida adulta. 3- Que o resultado normal da necessidade dos jovens de separar-se dos pais se constitua em um período de conflitos intensos e hostilidade declarada. 4- Que exista invariavelmente um abismo entre gerações que se desenvolve progressivamente. Esses mitos vêm sendo transmitidos pelos meios de comunicação, pela população leiga e até mesmo por muitos profissionais que crêem que é normal ser anormal na adolescência. Pesquisas têm mostrado que os adolescentes com problemas estão em torno dos 20% de seu total, percentual não maior do que o encontrado na população em geral.

Assim, parece-nos que é importante retirar esse estigma de anormalidade que tem muitas vezes impedido o diagnóstico correto e precoce de algumas patologias e que, por esse motivo, deixam de ser tratadas.

Concluindo, queremos apontar a importância e a necessidade do conhecimento da influência que os sistemas familiares têm sobre o desenvolvimento e comportamento dos adolescentes.


BIBLIOGRAFIA

 

BRONFENBRENNER, U. La ecologia del desarrollo humano.  Barcelona, Paidós, 1987.

HOFFMAN, L.; PARI, S. Y HALL, E. Psicologia del desarrollo hoy. Madrid, McGraw-Hill, 1997.

RODRIGO, M.J. Y PALACIOS, J. (coords.) Familia y desarrollo humano. Madrid, Alianza, 1998.