ADOLESCÊNCIA do que estamos falando?
Maria Aznar Farias
O nosso objetivo com o presente artigo é fazer uma reflexão crítica sobre o que vem sendo apresentado como resultado dos estudos da adolescência. Tentamos, com isso, não só incitar questionamentos, mas trazer algumas colocações mais recentes que objetivam uma agilização do pensamento, por parte dos profissionais que lidam com o adolescente, para a atuação tanto preventiva quanto curativa.
Desde 1904, quando Stanley Hall definiu a adolescência como um período de tempestade e tensão, muito se tem falado, principalmente ressaltando os seus aspectos comportamentais negativos.
A adolescência tem sido também chamada de puberdade. Isso porque as modificações decorrentes do aparecimento das características sexuais secundárias têm sido o marco deste período evolutivo. Porém, a puberdade refere-se ao processo de desenvolvimento orgânico, corporal, nos dando pouca informação sobre as mudanças comportamentais, uma vez que estas tem uma forte ação dos aspectos culturais, sociais e cognitivos. Parece-nos apropriado, portanto, não confundir os termos, ainda que se superponham.
A puberdade é determinada e normativa. É um fenômeno universal com um ritmo que, embora varie de indivíduo para indivíduo, de acordo com o crescimento e desenvolvimento, é previsível dentro de parâmetros próprios da espécie.
A adolescência tem componentes não normativos, fruto das interferências de aspectos particulares da cultura na qual está inserida. Não é, portanto, universal e sim, particular a cada contexto. Esse pensamento está de acordo com a opinião de alguns antropólogos: " os problemas dos adolescentes nem são universais, nem estão ligados à natureza humana, mas que dependem de pautas culturais "(Mead, 1928 ).
A grande dificuldade aparece quando tentamos enquadrá-la cronologicamente, pois aí se faz necessário uma caracterização e definição muito clara e detalhada. Hoje se fala em adolescência precoce e adolescência tardia sem se fazer referência às transformações pubertárias. Sendo a adolescência precoce anterior ao aparecimento das características indicativas da puberdade e a adolescência tardia a manutenção da mesma quando, pelos critérios biológicos, o indivíduo já é um adulto.
Na realidade o que vem sendo considerado adolescência precoce são comportamentos estimulados pela mídia e mesmo pela família como o uso de roupas com "design" adulto, reivindicações de independência - sem nenhum traço de maturidade -, pintura nas meninas, encorajamento de comportamentos e de aproximações íntimas um tanto sexualizadas , namoros, etc.
A adolescência tardia é um fenômeno que aparece na maioria das culturas ocidentais, uma vez que se exige uma especialização maior e consequentemente um maior período de preparação de seus membros, impedindo com isso que eles ingressem no mercado de trabalho e assumam a tão desejada autonomia.
Há alguns autores que descrevem ainda a adolescência como um período de instabilidade psíquica, atribuindo às "mudanças fisiológicas que se produzem na puberdade, fundamentalmente o brotar do impulsos sexuais" (Del Pozo et alii,pag 152), a responsabilidade pela "crise".
Sabe-se que a busca e construção de uma nova identidade é o foco central da adolescência, secundado pelas mudanças físicas e cognitivas. O adolescente nesta fase encontra o universo social e cultural a lhe exigir mudanças, para as quais muitas vezes não está preparado.
A construção da identidade adulta implica numa série de perdas, como o corpo infantil, a condescendência com a condição de criança e os pais da infância, que eram mais protetores e menos exigentes, entre outras. A essas perdas se acrescem os problemas da dificuldade de se configurar uma auto-imagem corporal em um corpo em constante transformação, da qual não tem controle.
No "VII CONGRESO INFAD: Adolescência", realizado em maio de 1997 em Oviedo-Espanha, foi bastante discutida a postura dos estudiosos da adolescência em relação à colocação da mesma como crise (Del Pozo; Gonzalo; Herrán; Perez ; Salvador et alii).
O estereótipo cunhado sobre o comportamento adolescente, baseado nos problemas e nos aspectos paradoxais do comportamento, que incomodam a sociedade em geral e aos pais em particular, nem sempre corresponde à realidade. Ao longo da história o estudo da adolescência e a cultura leiga produziram uma crença, hoje um tanto cristalizada, de que a adolescência é por si uma síndrome cujos sintomas se caracterizam como normalidade. Mas nem todos os adolescentes apresentam o comportamento rebelde que corresponde à esteriotipia.
A colocação da adolescência como crise que passa com a idade, onde o normal é ser anormal, pode levar a um viés. Pode supervalorizar problemas, que nem sempre são importantes, como as dificuldades entre pais e filhos, que na maioria das vezes se referem à comportamentos de auto-afirmação, em relação a horários e vestimenta e minimizar outros, que podem ser indicativos importantes de patologia.
Falar em normalidade e anormalidade requer mostrar de forma clara e operacional a que variáveis nos referimos. A famosa Síndrome da Adolescência Normal (SAN), por exemplo, deixa freqüentemente pacientes adolescentes sem diagnóstico. Muitos de nossos médicos tem jogado no rótulo SAN os mais diversos sintomas, sem se preocupar com um diagnóstico especializado.
Existe um grande risco em ter um pensamento reducionista e estereotipado do período da adolescência: o de se perder a oportunidade de diagnosticar e tratar precocemente problemas verdadeiramente psicopatológicos.
Segundo Herrán (1997), uma visão superada pode limitar a investigação e retardar a justa valorização de alguns avanços já conseguidos. Para ele é bom "lembrar que a conduta humana tende a se ajustar às expectativas" (pag. 131).
A idéia de que o período da adolescência não seja necessariamente algo "normalmente anormal" tem gerado muitos trabalhos e vários são os autores que a descrevem como um período pessoalmente satisfatório ( Peres, 1997 ; Salvador et alii, 1997).
Os trabalhos mais recentes vêm preferindo apontar a adolescência não como um período de crise, mas como um período evolutivo de transição entre a infância e a idade adulta. É necessário retirar-lhe o estigma que não faz justiça a uma grande parcela da população adolescente.
A discussão, segundo Gonzalo (1997), gira entre a posição que mantém a existência de uma grande crise, a que nega a existência ou intensidade da crise- atribuindo muitos de seus efeitos a fatores culturais- e a posição que " entende o desenvolvimento como uma sucessão de crises vitais".
Em alguns marcos teóricos encontramos a idéia de crise não como é colocada pelo pensamento de Stanley Hall ou Anna Freud , mas como algo que é inerente ao crescimento, sendo o seu sentido de certa forma benéfico. Mais ou menos como o de sair fortalecido da crise ou crescer com ela.
Parece-nos que a existência ou não das crises depende da forma como olhamos a manifestação dos comportamentos dos adolescentes e a intensidade desses comportamentos. Podemos estar diante de indecisões próprias desse período evolutivo, uma vez que ainda não tenha sido formado um juízo de valor, ou mesmo diante de situações paradoxais nas quais nem o adulto mais amadurecido teria certezas.
A problemática, sempre atribuída ao próprio adolescente, deve ser analisada também à luz das mudanças sociais e culturais, assim como das crises ou características desajustadas do próprio sistema familiar ou do casal parental. HERRÁN (1997) nos diz:
Creo que la conducta peculiar de los adolescentes, no debiera estudiarse sin analizar simultaneamente la de los adultos con quienen se relacionan, ya que son lógicamente corresponsables de dichos comportamientos. Así quizá se superariam descripciones o calificaciones, que parecem más bien descalificaciones, genéricas y agresivas como rebeldia, oposición irracional, radicalismo, gregarismo, etc.( pag. 126).
Concluindo, gostaríamos de fazer um resumo do que nos parece seja o pensamento mais atual sobre a adolescência.
A adolescência é um período evolutivo de transição entre a infância e a idade adulta que, em condições normais, é deflagrada pela puberdade englobando a ação do meio, as vivências anteriores, assim como as que vão ocorrendo durante o próprio processo de mudança.
O trajeto do avanço do desenvolvimento da infância para a maturidade, própria da idade adulta, pode ser visto no esquema em download
A construção do ser adulto impõe ao adolescente o enfrentar-se com uma série de tarefas. Vencê-las depende não apenas do sujeito mas do seu passado, e do seu meio. Se as vivências forem satisfatórias ele terá mais condições de faze-lo. O adolescente ao buscar sua identidade se opõe aos valores estabelecidos, busca sua autonomia - o que gera conflitos com a família - mas essa autonomia não significa independência. As suas estruturas biológica, mental, afetiva e social se assemelham às do adulto. Falta-lhe, no entanto, a experiência que é o elemento que vai dirigir as correções necessárias, retroalimentando o funcionamento dessas estruturas.
Nós estamos vendo progressivamente nossos jovens adolescentes perdidos pela falta de parâmetros. Estes implicam na colocação de limites, que são necessários, dão previsibilidade e segurança.
Se acompanhamos a turbulência de se deparar com um corpo em constante mudança - e sem controle sobre ela -; novas exigências do meio - e sem experiência prévia -; a sexualidade impulsionada pelos hormônios; e a possibilidade de procriar - sem ter autonomia financeira -, veremos que, mais do que em outras ocasiões, na adolescência, o ser humano precisa de parâmetros e regras que o ajudem a integrar tantas coisas novas. A sua tarefa principal, como já foi colocado, é transformar-se em adulto e preparar-se para desempenhar o papel de adulto de uma forma satisfatória.
BIBLIOGRAFIA
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